Fides Quaerens Intellectum |
Segunda-feira, Novembro 20, 2006
A IRA DO SENHOR DE ACORDO COM Is 9.7-21
Sempre digo que a qualidade de nossa religião, de nossa fé, depende totalmente da imagem que fazemos de Deus. Se nosso Deus é o juiz austero, nossa religião, inevitavelmente, terá características legalistas, punitivas. Se nosso Deus é o distante gerente da agência bancária, nossa religião terá características de conta corrente, com débitos, créditos, poupança, dívidas. Se nosso Deus é bonzinho, puro perdão e misericórdia, nossa religião terá características permissivas e sem limites. Todas as visões que fogem do equilíbrio bíblico têm deturpado, manchado e estragado a beleza da mensagem do Deus que salva em Jesus Cristo. Um dos temas mais odiados nos nossos dias é aquele que trata da Ira do Senhor. As pessoas trincam os dentes e bradam (às vezes até com ira): Não! Isso não existe! Não é verdade! Como pode um Deus que é amor e que nos ama pra caramba ter ira! Ira é coisa dos homens! A ira é o sentimento escolhido pelos autores bíblicos, de uma forma poética, para expressar o desagrado e a não indiferença de Deus em relação a tudo o que corrompe, destrói e oprime a obra-prima da sua criação: o ser humano. Para os profetas, a ira, desagrado ou indignação de Iahweh era a garantia transcendente de que o mal não prevalecerá, de que o pobre não será para sempre injustiçado, de que o nome de Iahweh não será para sempre desonrado. De acordo com Is 9.7-21 há três questões que desagradam demais ao Senhor e provocam sua ira: I. Orgulho e presunção do homem manifesto, principalmente, na incapacidade de enxergar a mão de Deus na história e na insistência contumaz em seguir seus próprios planos egoístas; II. Desencaminhamento do líder e do liderado. O texto nos fala dos anciãos e dos profetas enganadores assim como daqueles que os seguem. São os que desencaminham e os que se deixam serem desencaminhados; III. Brigas entre irmãos que se refletem na história da violência entre os homens e na ausência de perdão. Todas estas questões, de acordo com o texto bíblico provocam a ira de Iahweh. Em contraponto podemos enumerar as reações evangélicas a elas: I. A reação ao orgulho e presunção é a humildade. A humildade aprende a olhar e a descobrir a ação de Deus na história. A humildade vive nos planos de Deus porque já descobriu que os caminhos outros são descaminhos e só levam à desgraça e o nonsense; II. A reação ao desencaminhamento é a profecia. Na profecia há o profeta como instrumento da Palavra de Deus e o povo que ouve e pratica. Ambos, então, sabem para onde estão indo, o caminho menos pisado, o caminho de Emaús, onde Jesus Cristo está. III. A reação às brigas entre irmãos é o amor. Amor não apenas como oposto da violência, mas como atitude positiva de prática do bem e da justiça. Amor como perdão, a radical atitude de rompimento com a cadeia de violência, mágoa e vingança que existe entre os homens. Assim, a alegria do Senhor estará sobre nós. Tudo, então, faz sentido. Tudo tem propósito. Vale a pena viver. Comments:
O PRINCÍPIO PROTESTANTE PARA HOJE
Na próxima terça-feira comemoraremos os 489 anos da Reforma Protestante. A data referência para o marco da Reforma foi o dia em que o monge alemão Martinho Lutero colou, na porta da Igreja que pastoreava, a Catedral de Wittemberg, suas 95 teses que atacavam o sistema de indulgências da Igreja. A Reforma é um misto de várias confluências e tendências que ainda desconcertam os que olham para trás e tentam compreendê-la. É avivamento religioso e também reforma política. É a redescoberta do Cristianismo primitivo e também filho do Renascimento. É o reencontro com as Escrituras e a necessidade econômica de rompimento com a Igreja latifundiária. Todos esses aparentes paradoxos são tipicamente reformados, a mão de Deus e a mão transformadora do ser humano, mas além de tudo isso existe um espírito que habitava em todos esses revolucionários: o assim chamado princípio protestante. O princípio protestante é o protesto humano contra tudo que não é divino mas se coloca no lugar de Deus. Protesta contra toda a autoridade que não é legítima; contra toda verdade que não é Escriturística; contra tudo aquilo que se adora e obedece cegamente que não seja o próprio Deus trino; contra todo absoluto que não emana da divindade, seja esse absoluto, moral, político, teológico ou social. É uma abertura para um mundo novo que carece de transformação e oferece infinitas possibilidades. É a vontade de construir de novo aquilo que se corrompeu com o tempo. Reforma é olhar para a casa decadente, velha, cheia de vazamentos, estruturas comprometidas, e querer torná-la nova, próxima ao seu projeto original, sem as corrupções e putrefações que surgiram com o tempo. Fala-se muito hoje sobre a necessidade de uma nova Reforma. É impossível, entretanto, que isso aconteça. A Reforma é datada, irrepetível como qualquer outro grande momento histórico. As condições mudam, o homem muda, as necessidades e crises também são diferentes. Mas o espírito do princípio protestante pode e deve habitar em nós como cristãos reformados que somos. A triste notícia é que ele se foi há muito... Somos engessados demais com nossa própria tradição, nossos símbolos e documentos constitucionais. Somos indiferentes demais para um espírito realmente protestante ¿ somos muito mais rebeldes do que reformadores, preferimos criticar e derrubar do que construir e reformar. Somos preguiçosos demais para ¿pensar¿ o Reinado de Deus. Conformados e conformistas demais para uma transformação profunda, tão fundamental para o princípio protestante. Nessas datas comemorativas é bom que reflitamos com um mínimo de seriedade sobre a questão: onde está o espírito protestante que habitava nos nossos pais espirituais? Se somos tão amantes da tradição por que não tomamos posse do que há de melhor na nossa tradição? Onde foi parar aquela abertura para o novo e aquela preocupação em reformar a sociedade à luz da Palavra de Deus revelada nas Escrituras? Cadê a crítica profética ao mundo e a Igreja? Por que matamos os nossos profetas e apedrejamos os que nos são enviados? O desafio desta geração é assumir um espírito novo, que, na verdade, não é novo, mas tem quase quinhentos anos de história e reformar uma Igreja engessada e uma sociedade corrompida. Para a glória de Deus! Comments:
LIDERANÇA SEGUNDO A CARTA DE PAULO A TITO
Continuamos nossa reflexão sobre a essência da Liderança. Dessa vez reflitamos sobre a questão a partir da carta de Paulo a Tito. Logo no primeiro capítulo Paulo lembra da missão de Tito na Igreja de Creta: "Eu te deixei para cuidares da organização e ao mesmo tempo para que constitua presbíteros" (1.5). Tito é um organizador da Igreja em Creta, fundada por Paulo. A grande preocupação do apóstolo é que não surja na comunidade uma nova liderança que o suceda. A problemática é a da sucessão apostólica. Então, ele constrói suas orientações para o surgimento de uma nova liderança, os presbíteros. As recomendações do apóstolo são detalhadas: "cada qual devendo ser, como te prescrevi, homem irrepreensível, esposo de uma única mulher, cujos filhos tenham fé e não possam ser acusados de dissolução nem de insubordinação. Porque é preciso que, sendo ecônomo das coisas de Deus, o epíscopo seja irrepreensível, não presunçoso, nem irascível, nem beberrão ou violento, nem ávido de lucro desonesto, mas seja hospitaleiro, bondoso, ponderado, justo, piedoso, disciplinado, de tal modo fiel na exposição da palavra que seja capaz de ensinar a sã doutrina como também de refutar os que a contradizem" (1.6-9). Alguns aspectos merecem destaque e são reafirmações do pensamento paulino sobre liderança, também exposto em sua carta a Timóteo. Três grandes pontos são enfatizados: I. O líder precisa ter domínio próprio lapidado pelo caráter de Cristo. Não deve haver motivo de repreensão na sua conduta por falta de domínio próprio. O líder deve saber falar e calar na hora certa e jamais pode ser dominado pelo seu gênio, por sua ganância, pelo álcool ou pela sua vaidade. O líder não deve perder o controle diante das situações e sim alguém preparado para a reflexão, a ponderação e o equilíbrio. II. O líder deve ser piedoso como Jesus Cristo. Piedade não no sentido "gospel" de espiritualismo e aparências externas, mas deve ser justo, terno e bondoso no trato com seus liderados. Isso é verdadeira piedade. O líder deve amar seus liderados e trata-los sempre com carinho, paciência e bondade. III. O líder deve ser um mestre. O mestre sempre é capaz de ensinar e refutar a sã doutrina e refutar os que a contradizem. Sua maneira de ensinar está de acordo com todas as outras características descritas acima. O líder jamais ensina, "ataca" ou critica alguma coisa porque "acha que é assim" ou porque toma para si a prerrogativa de líder ou simplesmente diz "é a minha opinião" sem estar pronto e coberto de razão para expô-la e defendê-la com bons argumentos. Se algo está errado, na opinião do líder, ele ensina o correto. Jamais ele pune, ataca ou boicota. O assunto seguinte do apóstolo (1.10-16), em brilhante didática, é como se fosse um manual para se detectar lideranças pervertidas. São três as marcas destes falsos líderes, o exato oposto do que foi descrito acima: I. Agem com impiedade. Paulo nos diz que são "insubmissos, verbosos e enganadores (...), pervertem famílias inteiras (...) Afirmam conhecer a Deus, mas negam-no com os seus atos, pois são abomináveis, desobedientes e incapazes de qualquer boa obra". Há uma grande distância entre suas palavras e seus atos; II. São maledicentes, julgadores e críticos destrutivos. "Um de seus próprios profetas disse: "os cretenses são sempre mentirosos, animais ferozes, comilões vadios" (...) Para os puros todas as coisas são puras, mas para os impuros e descrentes, nada é puro: tanto a mente como a consciência deles estão corrompidos". São líderes sempre dispostos a agir como acusadores, desanimadores e juízes. Falam muito sobre pureza, querem "purificar" cada elemento da comunidade que, segundo eles, não agrada a Deus. São amantes do controle, da disciplina, dos códigos legais, das normas, das resoluções, dos títulos. III. São falsos mestres. Na verdade, não podem ser falsos mestres porque falsos mestres não existem. Apenas não são mestres. Não querem ensinar a verdade. Não conhecem a verdade, "ensinam o que não tem direito de ensinar (...) não fiquem dando ouvidos a fábulas judaicas ou a mandamentos de homens desviados da verdade". Nada ensinam, apenas impõem, deturpam, estragam. Diante de tudo que foi apresentado precisamos não apontar dedos, mas realizar uma séria e profunda auto-análise sobre a qualidade da nossa liderança. O Projeto Igreja Presbiteriana de Camarista Méier 2008 é uma realidade. Não podemos deixá-lo estragar através de uma liderança defeituosa. Que a Palavra de Verdade nos transforme dia-após-dia. Comments:
LIDERANÇA SEGUNDO A CARTA DE PAULO A TITO- 2ª. PARTE
As recomendações de Paulo a Tito continuam e podem ser agrupadas em três grandes blocos distribuídos por todo o capítulo 2 e 3 da carta: I. O líder deve ter conhecimento. Paulo exorta "Quanto a ti, fala do que pertence à sã doutrina" (2.1) e "Sê (...) íntegro e grave na exposição da verdade, exprimindo-te numa linguagem digna e irrepreensível, para que o adversário, nada tendo que dizer contra nós, fique envergonhado" (2.7s). Bom, temos aí um petardo contra muitos maus líderes e contra nosso próprio modo de ser. Já sabemos que a liderança não pode ser imposta nem empurrada goela abaixo de ninguém, porque se for assim está fadada ao fracasso. O conhecimento é um fator que legitima qualquer liderança. Ouso dizer que um líder que legitima sua liderança por falar mais alto, ou por estar sendo lembrando aos outros sua posição de destaque ou seu título, torna-se ridículo aos olhos das pessoas, mas o líder com conhecimento torna-se respeitado e é solicitado porque as pessoas confiam na sua capacidade e preparo. O líder deve ler, deve ter conhecimento da igreja e suas regras e ter uma visão global de todo assunto que envolve qualquer questão relativa ao Reinado de Deus. II. O líder deve ser modelo de boas obras (2.7). Quando digo que o líder deve ser modelo não quero dizer que ele precisa ser como Deus, em sua perfeição absoluta. De maneira nenhuma. O líder é o tipo da pessoa que age da seguinte forma... "olha, tenho minhas limitações e meus defeitos, vocês sabem disso, mas quero tentar, quero mergulhar de cabeça nisso, façam como eu, venham comigo, eu vou abrir passagem nesse matagal e vocês seguem minha trilha. Façam como eu faço". Seus liderados o seguem porque, antes de mais nada, confiam nele. Um bom instrumento para medir a qualidade e legitimidade espiritual de sua liderança é o seguinte: seus liderados o tomam como exemplo? Seus liderados almejam ser como você? Seus liderados espontaneamente te procuram para saber sua opinião e pedir conselhos e orientações? Se isso não acontece com freqüência, reveja sua liderança. Reconstrua. Questione e repense seus valores, antes que seja tarde demais. Para que se tenha poder de influenciar. Diz Paulo: "Exorta-os e repreende-os com toda autoridade. Ninguém te despreze" (2.15). O líder que age como Paulo recomenda tem em si mesmo a autoridade, portanto exorta e repreende com ela, não através dela. É uma diferença fundamental. Portanto, suas palavras não são desprezadas, mas recebidas com todo o carinho. III. O líder não pode estar envolvido em contendas. Sei que, às vezes, é preciso enfrentas inimizades, implicância, inveja, difamação e outras coisas mais. Faz parte da genuína liderança enfrentar oposição. Basta lembrarmos da liderança de Jesus e de Paulo, por exemplo. O carisma do líder só pode suscitar duas posições: ou você se "seduz" ou você "rompe". Mesmo assim, o líder jamais procura, por si mesmo, arrumar contendas, "picuinhas", brigas e oposições por questões sem importância. O líder, porque tem conhecimento, sabe distinguir aquilo que é primordial e não se pode abrir mão daquilo que é secundário e não compromete a fidelidade da mensagem do Evangelho e da missão da Igreja. Diz o experiente apóstolo a Tito: "Evita controvérsias insensatas, genealogias, dissensões e debates sobre a Lei, porque para nada adiantam, e são fúteis. Depois da primeira e da segunda admoestação, nada mais tens a fazer com um homem faccioso" (3.9s). Traduzindo e aplicando aos nossos dias a recomendação de Paulo: o líder deve evitar debates e controvérsias secundárias, que não comprometem em nada o viver da Igreja. Disputinhas pessoais, egos ofendidos, implicâncias, regrinhas descontextualizadas, proibições sem sentido, "masturbações" teológicas, tradições mortas de velhos, entre tantas outras coisas. Nada disso deve ocupar o tempo e o pensamento do líder. Sabe por quê? Simples. Ele tem uma missão muito grande, uma visão e um sonho que precisam ser construídos e todos os seus esforços estão voltados para este objetivo. Irmãos, não permitamos que nossos objetivos sejam atrasados ou até mesmo perdidos de vista por estas questões. Que Deus abençoe e Ele mesmo construa e aperfeiçoe nossa liderança. Comments:
A LIDERANÇA E O JACARÉ: CUIDADO COM O JACARÉ! ¿ COMO LIDAR COM AS TAREFAS (E PESSOAS) QUE FICAM NO SEU PÉ PARA TIRAR O SEU FOCO
"Estou muito preocupado com o número de pessoas, de todas as idades, que me contam estar preocupados com sua performance. (...) Tenho notado que existe um inimigo (...) que afasta as pessoas da tão sonhada performance. É o jacaré. Deixe-me explicar: muitos anos atrás, ouvi numa aula (...) a seguinte frase: Se você tem um jacaré a lhe morder a perna, a tendência é esquecer que sal tarefa principal era drenar o pântano. Realmente, nessa hora a sobrevivência fala mais alto. Você entra no pântano, cheio de vontade de executar a tarefa de drená-lo. Aí, o jacaré morde a sua perna. E você vai querer matar o jacaré, claro. O pântano que espere. O jacaré desta história é o nosso dia-a-dia. É a rotina que lhe ataca de manhã e que impede que você faça todas as tarefas que planejou para o dia. E ao final, exausto, você olha a pilha de jacarés mortos e é cobrado (...) pelo pântano que não drenou. Saber enfrentar a rotina é uma tarefa fundamental para quem quer ter alta performance. Evitar o jacaré é planejar melhor, é testar todas as hipóteses, é prever os desvios e inconsistências. O jacaré detesta planejamento. Ele anda (...) com sua casca grossa, rabo comprido e braços curtos dizendo que planejamento não serve para nada, que nunca dá certo, que é um jogo de adivinhação. Tudo mentira. O jacaré morre de medo do planejamento, que, quando, bem-feito, é um exercício de previsibilidade. E que não é feito para dar certo, mas sim para testar antecipadamente todas as hipóteses. Olhe bem a sua volta. Os jacarés estão por todos os lugares, com sua fala mansa e andar desengonçado. E, se você bobear, um deles ataca. Pronto, mordeu sua perna! Agora vai ter de matar este...e lá se vão horas e horas para resolver mais um problema criado. Fique atento. Planeje bem o seu serviço. Exercite o planejamento, pratique o exercício da previsibilidade, ou você vai se tornar um especialista em matar jacarés. E o duro desta vida é que o reconhecimento, as oportunidades e as recompensas só virão para os que drenarem o pântano. Vade retro, jacaré" (Luis Carlos de Queirós Cabrera é professor da Eaesp-FGV, diretor da PMC consultores) Algumas questões devem ser esclarecidas no que diz respeito à relação liderança cristã e jacaré: I. O líder verdadeiro jamais pode ser um jacaré. Jamais pode permitir que o alvo seja comprometido por qualquer questão secundária. Não é papel de um líder procurar pernas para morder. O líder não pode perder o foco jamais; II. O maior obstáculo do líder são os jacarés. Se o líder permitir que o jacaré morda sua perna vai passar todo o tempo se digladiando com o bicho feroz e não vai cumprir sua missão de drenar o pântano. O jacaré sempre aparece com uma palavra desanimadora, com um novo problema desencavado por ele mesmo, com alguma questão sem importância para ser elevada a status de prioridade, com alguma reclamação fora de hora; III. Vencê-los com o máximo de eficiência e o mínimo de esforço e tempo é o desafio da liderança eficaz. A missão, o alvo, o objetivo, não podem ser comprometidos em hipótese alguma pelos jacarés. A melhor maneira de lidar com eles é mantê-los sob controle, porque também têm sua importância. Que o Senhor nos ajude a lidar com os jacarés do dia-a-dia da missão da Igreja e que nos poupe de que sejam encontradas em nós mesmos braços curtos para servir, boca grande para falar, destes afiados para morder Comments: Sábado, Agosto 12, 2006
LIDERANÇA SEGUNDO AS CARTAS DE PAULO A TIMÓTEO- 2ª. PARTE
A segunda carta de Paulo a Timóteo é outra riquíssima fonte cristã sobre a questão da liderança. Nesta pastoral vamos refletir a respeito de alguns princípios que Paulo ensina ao jovem Timóteo sobre como ser um líder genuinamente cristão. Primeiro, o líder não deve se envergonhar de sua liderança. O líder não precisa pedir desculpas por estar liderando, nem se envergonhar de seu chamado. Diz Paulo: exorto-te a reavivar o dom espiritual que Deus depositou em ti pela imposição das minhas mãos. Pois Deus não nos deu espírito de medo, mas um espírito de força, de amor e de sobriedade. Não te envergonhes (...) (2 Tm 1.6-8). O contexto nos indica que Timóteo sentia-se tímido por sua juventude, mas a imposição de mãos apostólica é o reconhecimento pela comunidade de que o chamado é verdadeiro. Na Igreja, pelos chamados, caem as barreiras etárias, familiares e sexuais. O que há é uma comunidade igualitária de pessoas chamadas por Deus através de Jesus Cristo. Assim é a Igreja. Se há chamado de Deus para o exercício da liderança, não importa o sexo, a condição social ou a idade, mas a fidelidade ao Deus que chamou. Segundo, o líder é um multiplicador de experiência e conhecimento. O líder que não vive a experiência da doação de vida, tempo, experiência e conhecimento jamais compreendeu a essência da liderança e quer apenas perpetuar-se no poder. Paulo ensina: O que de mim ouviste na presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para ensiná-lo a outros (2 Tm 2.2). O líder doa pedaços daquilo que tem de melhor. O mais belo exemplo está na Eucaristia quando comemos e bebemos Jesus Cristo como meio de graça. O maior prazer do líder cristão é ver a multiplicação daquilo que ofereceu. Não há preço que o pague. Terceiro, por participar dos sofrimentos de Jesus o líder deve estar preparado para a experiência da dor, do abandono e da solidão. É duro, mas é verdade. Algumas vezes, no exercício do ministério da liderança, ele se vê completamente só, sem apoio, sem reconhecimento. É preciso que o líder tenha sempre em primeiro plano a fidelidade aos valores cristãos acima de qualquer tradição, moral ou pressão de seus liderados. De quando em quando, só vai lhe restar Deus mesmo. Paulo já ensinava a Timóteo: participa do meu sofrimento pelo evangelho (1.8); Assume a tua parte no sofrimento como bom soldado de Cristo Jesus (2.3). Quarto, o líder deve fugir de discussões infrutíferas. Não deve perder seu precioso tempo com questões que de nada valem para o crescimento na fé. O líder não deve perder tempo "jogando conversa fora" ou aceitando polêmicas tolas e gratuitas. (...) é preciso evitar as discussões de palavras: elas não servem para nada (3.14); dispensa com retidão a palavra da verdade (3.15); Evita o palavreado vão e ímpio (3.16). Quinto, o líder deve fugir das paixões da mocidade (3.22). Ele não pode trocar os seus valores por beleza, facilidades, fama, dinheiro, sucesso. Seus valores são a humildade, o serviço, a fidelidade ao Senhor. Sexto, para encerrarmos esse bloco, o líder deve ser manso para com todos (3.24). A mansidão deve ser marca registrada do líder. O líder jamais deve perder a razão com xingamentos, gritarias, dedos em riste, rudeza de palavras. O líder não deve brigar, mas com suavidade educar os opositores (3.25). Assim, corta a interminável cadeia de violência que marca as relações humanas. O líder é um pacificador, conciliador e propagador de ternura. Sem ternura não há liderança cristã. Sem ternura não há Cristianismo. Sei das dificuldades, mas estas devem ser metas do exercício de nossa liderança. Que o Senhor nos ajude! Comments:
CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA
Como todo brasileiro, apaixonado por futebol, sofri demais ontem à tarde. Depois de algumas horas desatei a pensar sobre o vexame daquela partida. Percebi que essa derrota ensina muito mais do que qualquer vitória mal jogada e perder mais uma vez para a França em momento decisivo me levou a um irresistível paralelo da situação de um time de futebol e uma congregação. A seleção brasileira era um time cheio de talentos individuais. Jovens atletas conviviam em harmonia com outros mais experientes com um objetivo aparente comum. Havia, porém, um grande problema: todos esses talentos individuais não se somavam para formar uma grande equipe, mas permaneciam sendo grandes talentos individuais vestidos com a mesma camisa para conseguir o mesmo objetivo. Aprendemos com esta derrota que se escalássemos os melhores jogadores do mundo para jogarem juntos não teríamos nada mais que onze dos melhores jogadores do mundo, não o melhor time do mundo. Na Igreja, a coisa é parecida. Não adianta sermos equipados com tantos talentos individuais se estes talentos não se reunirem em torno de um mesmo objetivo. Seremos apenas uma congregação cheia de talentos individuais, mas que juntos não são uma Igreja. Então, não adianta "convocarmos" o melhor seminarista, os melhores professores, os melhores oficiais, os melhores músicos, etc., se eles juntos não forem uma Igreja. Aprendemos que, em campo, um time é reflexo de sua liderança. Um técnico apático observava suas estrelas apáticas jogarem como se fosse mais um dos vários treinos coletivos de preparação. Mais cedo vimos um time sem grandes estrelas que vibrava em campo como reflexo da vibração quase engraçada de seu técnico brasileiro. Estes conseguiram seu objetivo. Na Igreja, a coisa é parecida. Uma liderança comprometida e vibrante produz liderados comprometidos e vibrantes. Assim, o púlpito precisa refletir essa vibração e essa seriedade, mas não apenas o púlpito. Toda a liderança deve ser assim. Líderes teimosos, que insistem nos velhos erros do passado, na tradição morta, e não disseminam o Evangelho sobre seus liderados formarão uma equipe que jamais conseguirá conquistar seus objetivos. No futebol, um time que vive de seus méritos mas não corrige suas falhas está fadado a sucumbir por elas. Assim foi com a seleção brasileira. As qualidades se desenvolviam na mesma proporção em que os erros se evidenciavam. Na Igreja, idem. Os defeitos precisam ser trabalhados mais do que as qualidades, porque as qualidades fluem com naturalidade, mas os defeitos precisam ser tratados com disciplina, tempo e paciência. Mais uma vez o Brasil cai diante de um velho demônio: a França. Sempre a França. Em 20 anos, ou seis copas, fomos três vezes eliminados pelos franceses. A Igreja fracassa também quase sempre pelos mesmos demônios. Caímos quase sempre nas mesmas falhas e fracassamos quando enfrentamos a "França". Enquanto os adversários são fracos, tudo parece bem, mas quando um grande problema aparece temos que voltar para casa sem conseguir o tão esperado objetivo. Por ter falhado em questões tão importantes, a seleção brasileira foi o grande fiasco da Copa de 2006. Aquele time tinha tudo para dar certo... Esta geração tinha tudo para dar certo... Será que vamos ter que falar isso da Congregação Presbiteriana em Camarista Méier? "Eles tinham tudo para dar certo..."? Assim como a seleção precisamos consertar velhos problemas, enfrentar velhos demônios. Precisamos de vibração e pessoas que chamem a responsabilidade para si. Precisamos de uma grande equipe, cada uma a exercer a sua função com humildade, imaginação e alegria. Só assim, deixaremos de ser promessa para nos tornarmos realidade. Uma hora os sonhos têm que se realizar... ou morrer. Estamos nas quartas-de-finais. O momento é decisivo. Comments: Sábado, Julho 15, 2006
LIDERANÇA SEGUNDO AS CARTAS DE PAULO A TIMÓTEO
A mais completa fonte bíblica sobre a questão da liderança encontra-se nas chamadas cartas pastorais de Paulo a Timóteo e a Tito. Vamos juntos refletir sobre os conselhos dados pelo apóstolo acerca da questão. Em 1 Timóteo 3 estão as instruções acerca dos requisitos necessários para o exercício de uma liderança de acordo com a vontade de Deus. Paulo não quer construir um curriculum mínimo exigido para o exercício da liderança, mas sim estabelecer princípios bastante práticos para que o líder da comunidade eclesial seja dotado de "muita intrepidez fundada na fé em Cristo Jesus" (3.13). É fundamental que o líder seja sempre alguém razoável e de bom senso (3.2). O líder deve ser um ser humano equilibrado, capaz de refletir não se deixando levar pelo calor da situação e das emoções. O líder deve ter a palavra de sabedoria, a capacidade de reflexão apurada e senso crítico experimentado. O líder deve ser simples (3.2). Pessoas simples são pessoas acessíveis e de fácil comunicação. O líder deve ser acessível em todos os níveis, mesmo que seja para ouvir coisas que o desagradam. Simplicidade é agir sem jamais se ter como o dono da verdade absoluta e da palavra final, mas alguém aberto ao diálogo e a troca de idéias e experiências com os demais envolvidos no processo. O líder deve ser um mestre (3.2). O líder ensina o tempo todo, mesmo quando não está em sala de aula. Ensina com sua conduta e seu modo de agir e é exemplo para seus liderados. O líder deve ser pacífico e tolerante (3.3). Deve ser o último a "explodir", a levantar a voz, a brigar. Sua autoridade é exercida com amor e ternura, jamais com gritarias e dedos em riste. O líder é a imagem de Jesus refletida a seus liderados. Sua liderança é uma expressão de paternidade/maternidade e cuidado para com seus liderados. O líder não é chefe, não é dono, mas amigo, companheiro, conselheiro e instrumento do Espírito na vida de seus liderados. O líder deve ser essencialmente altruísta (3.3, 6, 8). Sua vaidade, seu egocentrismo, seu narcisismo devem ser postos de lado. O líder é um servidor, alguém que abre mão de si para os outros e para a causa, que jamais leva em consideração seus próprios interesses e benefícios, mas os do grupo e do objetivo a ser alcançado. Este é um resumo dos princípios da 1ª. carta de Paulo a Timóteo e já nos faz refletir um bocado. Se olharmos a questão do ângulo inverso veremos o quanto nossa liderança tem sido infeliz. O oposto da razoabilidade e do bom senso é a teimosia, o preconceito e a ignorância. A teimosia é filha do ego inflamado. O teimoso jamais arreda pé de suas idéias por pura questão de vaidade pessoal. O preconceituoso é reflexo de uma mente fraca, destreinada e despreparada na arte do raciocínio e da reflexão. O ignorante é aquele que não tem conhecimento, nem quer ter. O ignorante não tem dúvidas, logo jamais chegará ao conhecimento porque o primeiro passo para o conhecimento é a dúvida. Então, é também teimoso e preconceituoso. Quantas vezes nossa própria liderança não tropeça por aí? O oposto do mestre é o crítico intolerante, o "intrigueiro" e o fofoqueiro. O crítico intolerante só faz desconstruir o que outros construíram com lágrimas, suor e orações. O "intrigueiro" sempre vê conspirações, intrigas, perseguições, implicâncias em tudo. O fofoqueiro só faz minar a comunhão, a confiança e a tolerância cristã. Todos são o oposto do mestre porque não edificam, mas derrubam, desconstróem, estragam. O oposto do pacifismo e da tolerância é a belicosidade e a intolerância. Estes não perdem uma briga por nada, "não levam desaforo pra casa", não esperam jamais a hora e o momento certo, mas são explosivos e destrutivos com uma liderança auto-destrutiva. Não têm paciência, não toleram as limitações e os defeitos do outro. Gostam de impor, atropelar, exigir, brigar. Digressão: aprendi com um senhor mais experiente: elogio se faz em público para todo mundo ouvir. Crítica se faz em particular, com ternura e amor, para só um ouvir. O oposto do altruísmo é o egoísmo, a vaidade e busca pelos próprios interesses. Não importa para estes o melhor para o grupo e para a causa a ser defendida, mas que suas idéias sejam impostas, que sua liderança seja sempre legitimada e reafirmada, que seu papel seja fundamental e seus interesses sejam respeitados e cumpridos. Reflitamos sobre a essência da liderança segundo a experiência apostólica de Paulo e tenhamos a coragem da auto-crítica e da abertura para a transformação. Que Deus nos ajude! Comments: Sábado, Julho 08, 2006
O LÍDER
Um dos temas mais discutidos e que tem produzido mais material nos últimos anos é a questão da liderança. Milhares de obras escritas que se utilizam sempre das teorias da moda vestidas como a verdade definitiva sobre a "ciência" da liderança. O que mais assusta é que apesar dos milhões de edições e de tanta discussão parece que não se tem avançado em direção a um amadurecimento da questão. Nos próximos domingos vamos, juntos, refletir sobre a essência e as características de uma liderança autêntica à luz do conhecimento geral, da psicologia e, principalmente, das Escrituras. A primeira pergunta que se faz é: o que é um líder? Não é difícil definir: um líder é alguém que exerce influência sobre outras pessoas. Um líder é um formador de opinião. Algumas marcas de nosso tempo produzem uma gigantesca carência de líderes. A começar pelo declínio dos grandes blocos de pensamento, ideologia e fé. Tudo já foi questionado, todas as ideologias já declinaram, todos os dogmas já foram atacados. Vivemos numa era de profunda crise de autoridade. As pessoas andam inseguras, desequilibradas e carentes. A figura do líder acaba suprindo parte dessa carência. O líder é alguém que se pode admirar, é um bloco que ainda permanece de pé. Sua liderança traz segurança, conforto, abrigo e equilíbrio, seja em família, no trabalho, na Igreja ou em qualquer outro ambiente. Outro aspecto é a desestruturação do velho conceito de família que é uma das conseqüências práticas de um fenômeno que chamo de "plastificação" do amor ou seu total esvaziamento e superficialidade. A solidão do ser humano à mercê dessa ideologia gera uma lacuna que é preenchida em parte pelo líder. Portanto, exercer liderança nos nossos dias reveste-se de uma profunda importância para o desenvolvimento da humanidade do outro. Os verdadeiros líderes sobrevivem à prova do tempo e permanecem exercendo influência depois de sua partida, tanto para bem quanto para o mal. Seres humanos iluminados de Deus como nosso Senhor, como Sócrates, Francisco de Assis, Martin Luther King Jr., Paulo de Tarso, continuam a ser nossos líderes. Mas, infelizmente, outros como Adolf Hitler, Charles Manson e a corja de políticos corruptos brasileiros também têm seus liderados. Há dois tipos de líderes, os autênticos e os impostos. Alguns líderes impostos podem se tornar líderes autênticos, mas é muito raro que isso aconteça. Líderes autênticos exercem sua liderança sempre com naturalidade porque são amados e respeitados por seus liderados. Líderes impostos precisam usar da força e do autoritarismo para conseguir a obediência de seus liderados, mas jamais conseguem o amor e a influência. Líderes autênticos produzem frutos em seus liderados com muita naturalidade. Líderes impostos ou falsos culpam, oprimem e espremem seus liderados para que produzam frutos. Líderes autênticos são ouvidos. Líderes falsos são aturados. Líderes autênticos falam. Falsos, gritam. Autênticos são modelo para seus liderados. Falsos são odiados ou desprezados. O líder cristão é, necessariamente, um líder autêntico por simples razão: ele é eleito por Deus e tornado líder pelo povo. Ainda assim, infelizmente, conhecemos casos de lideranças que se corrompem e confundem liderança cristã com qualquer outra coisa. Uma das cruciais distinções que devem ser feitas é que o líder cristão exerce sua liderança sobre voluntários. Um líder em uma empresa pode e deve exercer uma liderança autêntica, mas será sempre o cabeça de liderados que aceitam sua liderança por causa da relação de troca que têm com a empresa. Ninguém está lá porque gosta, mas porque no fim vai receber pelo preço do seu trabalho dinheiro para pagar suas contas e adquirir bens de consumo ¿ é a nova forma que a modernidade encontrou para as antigas relações de escravidão. Só que agora o senhor tem CNPJ e logomarca. Na Igreja não é assim, as pessoas se reúnem como uma comunidade eclesial porque responderam ao chamado de Deus em Jesus Cristo e o fazem no exercício da sua liberdade e livre vontade. O papel do líder é motivar, animar, chamar à responsabilidade com amor e mansidão. Não cabe ao líder cristão pressionar, interpelar, oprimir ou obrigar qualquer liderado a qualquer coisa. O líder cristão influencia pelas suas idéias e pelo seu exemplo e essa é a única maneira possível de se exercer uma liderança cristã autêntica. Continuamos na próxima semana. Comments: Domingo, Junho 18, 2006
SER HUMANO, AÇÃO SIMBÓLICA DE DEUS
O filósofo grego antigo Parmênides eternizou a clássica imagem da mudança: é impossível entrar no mesmo rio duas vezes porque o rio que se entra pela segunda vez já não é mais o mesmo rio. O mundo em que nascemos e vivemos é marcado pelo signo da contínua mudança e transformação. Algumas são possíveis de serem medidas, como as estações do ano e o movimento das placas tectônicas que formam os continentes. Outras, não. A imprevisibilidade nos provoca, assusta e desconcerta. Algumas mudanças não são boas nem más, mas apenas mudanças. No fim dos anos 50, um branco dançando esquisito e cantando como um negro criou o movimento revolucionário do rock n roll. Era Elvis Presley - não apenas um ícone, mas um símbolo de um mundo em transformação cultural. Elvis foi o elemento de transição para este novo mundo que surgia. Outras mudanças são negativas, são degenerações. Diante da exploração e desumanidade da indústria da escravidão foram necessários homens e mulheres que questionaram e lutaram contra aquilo - elementos de transição!. O profeta é um elemento de transição, mas também um anunciador de velhas verdades. É alguém com um pé no passado e outro no futuro. Por um lado, anuncia a Palavra de Deus revelada no passado atualizada para o presente e, por outro, anuncia um futuro de libertação. Um profeta é a sua mensagem. É alguém que não pertence a este mundo, não porque o mundo é mau, mas porque é um homem de outro mundo que ainda será. Ao refletirmos sobre o caráter profético da Igreja devemos trazer à memória o fato de sermos chamados, cristãos, a experimentar esta realidade. O desafio maior do nosso tempo é assumirmos nosso ser e nossa missão existencial como ação simbólica de Deus. Com isso, enfrentar a incompreensão, a oposição e toda a dificuldade de ser um sem pátria, um exilado, um errante do mundo, porque o transcendemos. Ser cristão é viver o paradoxo de ser mundano, por pertencer ao mundo e possuir a responsabilidade de seu cuidado, e transcender este mundo pertencendo a outro, futuro, libertador. Na prática é ser um sonhador, por acreditar num futuro sem males. É ser um inconformado, por saber da distância entre a realidade e a exigência do mandamento de Deus. È ser um incompreendido, por conter em si, latente, as sementes da transformação e do futuro libertador. Quem está disposto a assumir a ação simbólica de Deus? É preciso ter coragem de assumir os riscos de um caminho sem volta a ponto de trazer no corpo as marcas de Cristo. É preciso romper com o medo e a apatia. É preciso morrer para esta realidade presente que basta a si mesma e nascer de novo com uma nova consciência e um novo modo de ver e de viver a vida. Sem se preocupar com o que o mundo e os outros pensam para que Cristo viva assumindo o escândalo da fé, do amor e do serviço a realizar a absurda, mas linda, missão de transformar o mundo a partir da sua própria vila. Comments: Sábado, Junho 17, 2006
POETA DEGENERADO MEDÍOCRE E SEM INSPIRAÇÃO OU QUANDO MORREU O POETINHA OU, QUEM SABE, SOBRE A INUTILIDADE DE TUDO ISSO (QUANDO SE PERCEBE QUE O DIA NÃO VALEU)
Pra que serve o poema bonito? Pra que o poema engraçadinho? Pra que a metáfora? Tudo é engraçado e ridículo, Mas não nos é dado o direito de rir. Pra que parecer bom? Já se foi o tempo em que isso me pagou bem. Agora estou velho e cansado Entediado numa tarde que se torna noite escura. Gélida como a solidão. Não, não vou mais ser o poetinha. Quanto maior o coração mais fácil se ser atingido. Veja-me, sinta-me, toca-me, mata-me. Porque não sou o único Chateado demais para ouvir. Tentar escalar os muros. Chega do politicamente correto! Chega de bois! Vamos comê-los todos! Crianças que morrem metralhadas Guerras, sombras e cinzas. Chega! Grito! Berro! Rochas, angústia adolescente, decepção. Quem se importa? Ninguém ouve nada. E o nada muda. Nada pode dar certo demais. É contra o mundo e suas regras E espero que minhas regras e sabedoria me engulam. Basta continuar respirando por mais cinqüenta anos E não perder a cabeça que tudo vai indo. Quando olho a minha volta Não vejo nada. O peso do passado. O presente que não existe. Ninguém ao lado por mais de dez minutos. Os sábados são tão sufocantes. Quem se importa? Favores por favores. Assim é o mundo. Grande e frio. Eu? Sou apenas um medíocre Poeta degenerado sem inspiração. Apenas frases jogadas. Uivos que ninguém entende. Sentimentos espalhados e trêmulos. Cada parágrafo um tiro. Quem dera saísse algo belo disso ... O que sei é patético. Artista mal formado com dor-de-cabeça. Qual graça e beleza hão nisso? Alguém que faz o que não gosta. De que valem as lágrimas versadas? Anarquista torturado com medo de escuro. Ei, estou falando sem rodeios! Não vá reclamar! O que se faz quando se percebe que o dia não valeu? Os extra-terrestres, nem Deus, não vieram me visitar. E as mulheres ... Chorar? Meus olhos não fabricam lágrimas, Só ilusão e angústia. Chateação demais para ser feliz Alegrias esporádicas que vem e vão. Covardia e indiferença se combinam. Entrar em pânico não resolve. Não entrar também não resolve. O que fazer para suportar? Continuar esperando e morrer Cada vez mais longe do chão Cada vez mais perto do céu Sem ter um ataque de nervos. Apenas um pouco de auto-comiseração egoísta. Escondendo o que realmente tem a dizer Envergonhado demais para assumir a experiência da inexperiência, Continuar fingindo é a solução ... e a esperar. O medo é que a hora chegue tarde demais Quando for tolo demais Um estereótipo qualquer Motivo da risada. Medo? Nem tanto. O problema é oportunidade. Só tive uma vez. Destino levou. Coisa mal-resolvida, suspeita. Vai ver isso é normal. Vai ver que penso demais. Deixa acontecer! Ansiedade, palavra ridícula. A evitar falar de amor, Porque é inexplicável demais. A mais conceituada e explorada das palavras Ainda a mais obscura e devastadoramente singular. Como não confundi-lo? O que sobra dos versos é chateação, Preocupação, irritação e falta de carisma. Também um pouco de desesperadora solidão E falta de desenvoltura. Comments:
O OLHO DO FURACÃO
Certos dias acordamos pela manhã e não sabemos como agüentar até o fim do dia. Certas noites recostamos em nossos travesseiros e mexemos cada membro de nosso corpo para juntar os pedaços e reconhecer que não falta nada, mas falta... Há momentos na vida em que o furacão passa levando com ele nossos brinquedos, nosso vigor, nossa juventude, nossas alianças, o melhor de nossas memórias. Recordamos, então, do que é a vida e discordamos, em parte, do poeta Vinicius de Moraes, que dizia que a vida é a arte do encontro. A vida, mesmo, é a arte do encontro e da despedida. É construir e reconstruir. Começar e recomeçar. A tempestade de sexta-feira é uma pequena ilustração disto. Enquanto a tempestade não passa, ficamos ilhados, assustados. Reconhecemos mais do que nunca o quanto somos pequenos, limitados e não temos em nossas mãos o controle de nada. Não conseguimos chegar ao lugar em que queremos, nem sair do lugar de onde estamos. Depois que o vento acalma e as águas tumultuosas escoam, recolhemos os estragos. O importante nessas horas é saber tomar boas decisões e a melhor delas é esperar. "Mestre, o mar se revolta e as ondas nos dão pavor. Os céus se revestem de trevas, não temos um salvador", como diz a antiga canção. A resposta é "Sossegai". Penso em Jesus nessas horas. Seu ministério foi uma tempestade de aproximadamente três anos. Jesus sempre esteve no olho do furacão, perseguido pela roda viva. Nossa visão romantizada das situações bíblicas não alcança a complexidade dos momentos de isolamento de Jesus para orar. O Evangelho conservou um desses momentos que nos vem como uma brisa suave. "Pai, afasta de mim este cálice" Este era o conteúdo da oração de Jesus. O filme "A Última Tentação de Cristo" é um retrato tocante da absoluta humanidade de Jesus. Lemos em seu olhar todo o questionamento humano e universal diante da dor: "Por que eu tenho que passar por isso?" "Não haverá uma via menos dolorosa?" "Por que tanto sofrimento no mundo?" Instala-se, então, a dúvida e o questionamento do Ser, da Vida e de Deus. São os saltos no escuro, é a montanha que Abraão leva Isaque, é o caminho sempre aberto para fugir da responsabilidade. É quando acreditamos que não há mais saída. O fim está próximo. E, tão rápido quanto veio a chuva vai, instala-se uma estranha calmaria. Tudo resolvido, então? Não, continuamos sem entender. Continuamos sem aceitar. Mas algo muito estranho acontece. Algo aqui dentro parece ter nascido. É a fé fortalecida. É a fé que te sustenta quando tuas pernas vacilam. Pensamos morrer. Acabamos maduros. Lembra Kierkegaard: "A vida é vivida pela frente, mas só a compreendemos quando olhamos por trás" Lembra, também, uma simples lição contada pelos antigos: "Certo homem sentiu-se desesperado e clamou a Deus com toda a dor que há no mundo: "Por que? Por que? Por que tu te calas diante do sofrimento? Por que não fazes alguma coisa para mudar o mundo? E Deus lhe respondeu: "Que mais queres que eu faça para mudar o mundo? Eu já fiz você" Comments:
QUEM SABE FAZ A HORA NÃO ESPERA ACONTECER
"Vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer". Este é o refrão de uma música muito conhecida de Geraldo Vandré, lá pelos idos dos anos 60 do século passado. Cito esta canção como ilustração muito positiva de uma atitude de responsabilidade ativa pelo presente e pelo rumo dos acontecimentos que praticamente não encontramos mais hoje na nossa geração Xuxa. A má notícia é que nós, crentes reformados, que deveríamos ser exemplo de inconformismo e inconformidade com a ordem estabelecida, somos ainda piores do que aqueles que não confessam a mesma fé que a nossa. Uma famigerada distorção do conceito de predestinação e soberania de Deus injetou no subconsciente de gerações uma inatividade, uma falta de senso de urgência e uma apatia pela evangelização que são uma das principais causas da falta de crescimento genuíno de nossa tradição e, também, da nossa congregação em Camarista Méier. O indivíduo raciocina da seguinte forma: "Deus é soberano", "Tudo está predestinado", "Os eleitos serão salvos". Conclusão: "Que papel tenho nisso tudo? Nenhum, já que Deus se encarrega de tudo". Não vou gastar tempo contra-argumentando que Deus salva seus eleitos pela instrumentalidade dos enviados dEle, pequenos Cristos a proclamar o Evangelho ao mundo. Nem que Deus me escolheu e te escolheu como instrumentos porque, bem lá no fundo, pensamos assim: "Se eu não for, outro vai mesmo". Vou, antes, caminhar por outra trilha. Essa trilha trabalha com o conceito de missão e gratidão. "Não fostes vós que me escolhestes, eu vos escolhi e vos destinei a ir e dar fruto, um fruto que permaneça" (Jo 15.16) A mesma doutrina que distorcemos para fugir da missão quando vista em sua integralidade ensina que a mesma predestinação para a salvação é também para a missão. Fomos predestinados para a salvação e para a produção de frutos. Pode-se dizer com total apoio do Novo Testamento que a predestinação para a prática do bem e do amor é o único sinal que atesta a predestinação para a salvação. "Aos que escolheu de antemão destinou-os a reproduzir a imagem de seu Filho" (Rm 8.29) Se você se utiliza da doutrina da predestinação e da soberania de Deus para se tornar um crente acomodado só há duas possibilidades: ou você não é predestinado ou nunca compreendeu absolutamente nada da fé que professa, por isso vive um Cristianismo meia boca. Portanto, caro irmão e irmã, a vez é essa e a hora é agora de contribuirmos com a missão de Deus. A melhor maneira de começar é perguntando a si mesmo em espírito de oração quais são as reais necessidades de minha igreja e como posso ajudá-la. Nosso projeto é de, em muito breve, nos tornarmos uma igreja forte e independente não apenas em Camarista Méier, mas para toda nossa violenta cidade. A Congregação precisa: -Da sua contribuição financeira para melhorar a arrecadação. Precisamos, pelo menos, dobrar a arrecadação para pensar em ter um Ministro e virar igreja; -De evangelização. Precisamos muitas vezes evangelizar da maneira mais simples possível. O modo mais singelo de evangelizar é convidar alguém para o culto; -De formação de líderes. Um líder deve ser preparado em diversos quesitos, logo um bom líder é construído através da disciplina, do estudo e da prática. Há, ainda, outras coisas, mas se conseguirmos vencer estas três etapas, que não são nenhum bicho de sete cabeças, o sonho se tornará realidade e você poderá ter a santa satisfação de entender-se como missionário de Deus numa missão que deu certo. É hora de plantar porque o solo está fértil. Os frutos virão... Comments:
EXPERIÊNCIA PENTECOSTAL PARA HOJE
Ao lermos o título desta pastoral somos imediatamente invadidos por um jorrão de idéias que já são consagradas pelo uso e pela popularidade. A história, a filosofia e a teologia têm nos mostrado por repetidas vezes que idéias consagradas pelo uso funcionam como um muro que nos isola e nos impede de enxergar a verdade. Nesse contexto de teologia para microondas "experiência pentecostal para hoje" seria um discurso emotivo que trabalharia temas como "consagração", "experiências extraordinárias", "milagres", "Línguas estranhas". Um culto pentecostal seria um culto cheio de músicas profundamente sentimentais onde as pessoas expressam física e emocionalmente todas as suas emoções religiosas. Junta-se a isso a profunda ignorância do povo cristão quanto à sua história. Ignorância que chega ao ponto de identificar o Pentecostes e a experiência pentecostal da Igreja nascente com o movimento histórico eclesiástico chamado Pentecostal, que surgiu em fins do século XIX e início do século XX com raízes nos grande despertamento religioso do século XIX e nos movimentos místicos marginais que sempre estiveram presentes na história da Igreja - sempre associados a algum tipo de heresia trinitária ou novas revelações. Sabendo da absoluta diferença entre a experiência pentecostal de Atos dos Apóstolos e o assim chamado Movimento Pentecostal podemos construir positivamente e livres de nocivos preconceitos uma doutrina positiva da pentecostalidade da Igreja. Resumidamente, afirmamos pela fé que uma experiência pentecostal para hoje deve necessariamente: I. Ser uma experiência de testemunho. O derramamento do Espírito jamais serviu para satisfazer as necessidades religiosas e emocionais dos discípulos, mas para capacitá-los para o testemunho do Evangelho aos homens vazios de Deus. "Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas" (At 1.8) II. Ser uma experiência comunitária. A experiência pentecostal não é uma experiência do indivíduo com Deus, mas da Igreja com o Espírito. O Espírito é derramado sobre a comunidade reunida, não sobre o indivíduo isoladamente. "Tendo-se completado o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar" (At 2.1) III. Ser uma experiência ecumênica. O Espírito é derramado não para promover divisões ou formar grupos de "iluminados", mas para promover a unidade e para levar a mensagem do Evangelho a todo o mundo conhecido. "nós os ouvimos apregoar em nossas próprias línguas as maravilhas de Deus!" (At 2.11) IV. Ser uma experiência aberta para o futuro. O Espírito nas Escrituras é a ação de Deus que, ao mesmo tempo, critica a realidade presente e implanta nela as sementes de transformação para um futuro em que Deus mesmo reconstruirá os castelos destruídos da humanidade. O Espírito é Deus abalando as estruturas do status quo para que ele se abra para sua Vinda. (At 2.17-21) Sendo assim, devemos perseguir o alvo de nos tornarmos uma Igreja genuinamente pentecostal! Comments: Domingo, Maio 07, 2006
Moriá
Vinicius Esperança Pela voz do Deus da sua juventude Parte Abraão de manhãzinha rumo a Moriá Beija Sara, companheira da velhice, miséria e virtude Parte Abraão, pensativo, montado no asno Parte com o filho da promessa Parte com o rosto de um bom pai Caminha três dias em silêncio Em Moriá, seu olhar é só tristeza e solidão Isaque não o compreendia Levanta o pai a faca com grande firmeza Nunca mais seria o mesmo Quando, do desmame, o tempo chegar A mãe esconderá o seio. Assim, acredita o filho que ela mudou o olhar. Pela voz do Deus da sua partida Parte Abraão logo cedo rumo a Moriá Despede-se de Sara, companheira de toda a vida Parte Abraão, angustiado, montado no burro Parte com o filho do futuro Parte com o rosto do assassino Caminha três dias em solidão Em Moriá, seu olhar é só angústia e dúvida Isaque não o aceitava, Isaque só dizia ¿não¿ Levanta o crente a faca com grande tristeza Nunca mais o futuro, nunca mais o passado. Quando, já crescido, tem de ser desmamado A mãe oculta o peito. O menino já não tem mãe, já não se sente amado. Pela voz do Deus da sua desgraça Parte Abraão de madrugada rumo a Moriá Vê, na janela, Sara, que da Promessa riu com graça. Parte Abraão, arrependido, montado no jegue Parte com o filho do passado Parte com o rosto de um crente Caminha três dias em crise Em Moriá, seu olhar é só dúvida e decepção Isaque não mais viveria Levanta o velho a faca com grande certeza Nunca mais tocaria arma. Quando chega a hora do desmame do bebezinho A mãe sofre a dor da separação. O infante está para sempre, sozinho. Pela voz do Deus do seu pesar Parte Abraão ao raiar do dia rumo a Moriá Abraça Sara, pensa em Ismael e Agar Parte Abraão, dilacerado, montado no jumento Parte com sua metade, seu pedaço, seu futuro, seu tormento Parte com o rosto de um velho Caminha três dias com angústia Em Moriá, seu olhar é só dor e desolação Isaque é sonho que acordava, filho do Deus da decepção Levanta o carrasco a faca com grande certeza Nunca mais seu olhar foi o mesmo. Quando, do desmame, chega a hora, a vez e a idade A mãe dá alimento forte. Para que não morra o filho de saudade Para que o filho não morra de saudade. Comments: |