Fides Quaerens Intellectum


Domingo, Junho 18, 2006
SER HUMANO, AÇÃO SIMBÓLICA DE DEUS


O filósofo grego antigo Parmênides eternizou a clássica imagem da mudança: é impossível entrar no mesmo rio duas vezes porque o rio que se entra pela segunda vez já não é mais o mesmo rio.
O mundo em que nascemos e vivemos é marcado pelo signo da contínua mudança e transformação. Algumas são possíveis de serem medidas, como as estações do ano e o movimento das placas tectônicas que formam os continentes. Outras, não. A imprevisibilidade nos provoca, assusta e desconcerta.
Algumas mudanças não são boas nem más, mas apenas mudanças. No fim dos anos 50, um branco dançando esquisito e cantando como um negro criou o movimento revolucionário do rock n roll. Era Elvis Presley - não apenas um ícone, mas um símbolo de um mundo em transformação cultural. Elvis foi o elemento de transição para este novo mundo que surgia.
Outras mudanças são negativas, são degenerações. Diante da exploração e desumanidade da indústria da escravidão foram necessários homens e mulheres que questionaram e lutaram contra aquilo - elementos de transição!.
O profeta é um elemento de transição, mas também um anunciador de velhas verdades. É alguém com um pé no passado e outro no futuro. Por um lado, anuncia a Palavra de Deus revelada no passado atualizada para o presente e, por outro, anuncia um futuro de libertação. Um profeta é a sua mensagem. É alguém que não pertence a este mundo, não porque o mundo é mau, mas porque é um homem de outro mundo que ainda será.
Ao refletirmos sobre o caráter profético da Igreja devemos trazer à memória o fato de sermos chamados, cristãos, a experimentar esta realidade. O desafio maior do nosso tempo é assumirmos nosso ser e nossa missão existencial como ação simbólica de Deus. Com isso, enfrentar a incompreensão, a oposição e toda a dificuldade de ser um sem pátria, um exilado, um errante do mundo, porque o transcendemos.
Ser cristão é viver o paradoxo de ser mundano, por pertencer ao mundo e possuir a responsabilidade de seu cuidado, e transcender este mundo pertencendo a outro, futuro, libertador.
Na prática é ser um sonhador, por acreditar num futuro sem males. É ser um inconformado, por saber da distância entre a realidade e a exigência do mandamento de Deus. È ser um incompreendido, por conter em si, latente, as sementes da transformação e do futuro libertador.
Quem está disposto a assumir a ação simbólica de Deus?
É preciso ter coragem de assumir os riscos de um caminho sem volta a ponto de trazer no corpo as marcas de Cristo. É preciso romper com o medo e a apatia. É preciso morrer para esta realidade presente que basta a si mesma e nascer de novo com uma nova consciência e um novo modo de ver e de viver a vida. Sem se preocupar com o que o mundo e os outros pensam para que Cristo viva assumindo o escândalo da fé, do amor e do serviço a realizar a absurda, mas linda, missão de transformar o mundo a partir da sua própria vila.


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Sábado, Junho 17, 2006
POETA DEGENERADO MEDÍOCRE E SEM INSPIRAÇÃO OU QUANDO MORREU O POETINHA OU, QUEM SABE, SOBRE A INUTILIDADE DE TUDO ISSO (QUANDO SE PERCEBE QUE O DIA NÃO VALEU)

Pra que serve o poema bonito?
Pra que o poema engraçadinho?
Pra que a metáfora?
Tudo é engraçado e ridículo,
Mas não nos é dado o direito de rir.

Pra que parecer bom?
Já se foi o tempo em que isso me pagou bem.
Agora estou velho e cansado
Entediado numa tarde que se torna noite escura.
Gélida como a solidão.

Não, não vou mais ser o poetinha.
Quanto maior o coração mais fácil se ser atingido.
Veja-me, sinta-me, toca-me, mata-me.
Porque não sou o único
Chateado demais para ouvir.
Tentar escalar os muros.

Chega do politicamente correto!
Chega de bois! Vamos comê-los todos!
Crianças que morrem metralhadas
Guerras, sombras e cinzas. Chega!
Grito! Berro!

Rochas, angústia adolescente, decepção.
Quem se importa?
Ninguém ouve nada.
E o nada muda.
Nada pode dar certo demais.
É contra o mundo e suas regras
E espero que minhas regras e sabedoria me engulam.

Basta continuar respirando por mais cinqüenta anos
E não perder a cabeça que tudo vai indo.
Quando olho a minha volta
Não vejo nada.
O peso do passado.
O presente que não existe.
Ninguém ao lado por mais de dez minutos.

Os sábados são tão sufocantes.

Quem se importa?
Favores por favores.
Assim é o mundo.
Grande e frio.
Eu?
Sou apenas um medíocre
Poeta degenerado sem inspiração.
Apenas frases jogadas.
Uivos que ninguém entende.
Sentimentos espalhados e trêmulos.
Cada parágrafo um tiro.
Quem dera saísse algo belo disso ...
O que sei é patético.
Artista mal formado com dor-de-cabeça.
Qual graça e beleza hão nisso?
Alguém que faz o que não gosta.

De que valem as lágrimas versadas?
Anarquista torturado com medo de escuro.

Ei, estou falando sem rodeios!
Não vá reclamar!

O que se faz quando se percebe que o dia não valeu?
Os extra-terrestres, nem Deus, não vieram me visitar.
E as mulheres ...
Chorar?
Meus olhos não fabricam lágrimas,
Só ilusão e angústia.
Chateação demais para ser feliz
Alegrias esporádicas que vem e vão.
Covardia e indiferença se combinam.

Entrar em pânico não resolve.
Não entrar também não resolve.
O que fazer para suportar?
Continuar esperando e morrer
Cada vez mais longe do chão
Cada vez mais perto do céu
Sem ter um ataque de nervos.
Apenas um pouco de auto-comiseração egoísta.
Escondendo o que realmente tem a dizer
Envergonhado demais para assumir a experiência da inexperiência,
Continuar fingindo é a solução ... e a esperar.

O medo é que a hora chegue tarde demais
Quando for tolo demais
Um estereótipo qualquer
Motivo da risada.
Medo? Nem tanto.

O problema é oportunidade.
Só tive uma vez.
Destino levou.
Coisa mal-resolvida, suspeita.
Vai ver isso é normal.

Vai ver que penso demais.
Deixa acontecer!
Ansiedade, palavra ridícula.
A evitar falar de amor,
Porque é inexplicável demais.
A mais conceituada e explorada das palavras
Ainda a mais obscura e devastadoramente singular.
Como não confundi-lo?

O que sobra dos versos é chateação,
Preocupação, irritação e falta de carisma.
Também um pouco de desesperadora solidão
E falta de desenvoltura.






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O OLHO DO FURACÃO


Certos dias acordamos pela manhã e não sabemos como agüentar até o fim do dia. Certas noites recostamos em nossos travesseiros e mexemos cada membro de nosso corpo para juntar os pedaços e reconhecer que não falta nada, mas falta...
Há momentos na vida em que o furacão passa levando com ele nossos brinquedos, nosso vigor, nossa juventude, nossas alianças, o melhor de nossas memórias. Recordamos, então, do que é a vida e discordamos, em parte, do poeta Vinicius de Moraes, que dizia que a vida é a arte do encontro. A vida, mesmo, é a arte do encontro e da despedida. É construir e reconstruir. Começar e recomeçar.
A tempestade de sexta-feira é uma pequena ilustração disto. Enquanto a tempestade não passa, ficamos ilhados, assustados. Reconhecemos mais do que nunca o quanto somos pequenos, limitados e não temos em nossas mãos o controle de nada. Não conseguimos chegar ao lugar em que queremos, nem sair do lugar de onde estamos. Depois que o vento acalma e as águas tumultuosas escoam, recolhemos os estragos.
O importante nessas horas é saber tomar boas decisões e a melhor delas é esperar.
"Mestre, o mar se revolta e as ondas nos dão pavor. Os céus se revestem de trevas, não temos um salvador", como diz a antiga canção.
A resposta é "Sossegai".
Penso em Jesus nessas horas. Seu ministério foi uma tempestade de aproximadamente três anos. Jesus sempre esteve no olho do furacão, perseguido pela roda viva. Nossa visão romantizada das situações bíblicas não alcança a complexidade dos momentos de isolamento de Jesus para orar. O Evangelho conservou um desses momentos que nos vem como uma brisa suave.
"Pai, afasta de mim este cálice"
Este era o conteúdo da oração de Jesus. O filme "A Última Tentação de Cristo" é um retrato tocante da absoluta humanidade de Jesus. Lemos em seu olhar todo o questionamento humano e universal diante da dor:
"Por que eu tenho que passar por isso?"
"Não haverá uma via menos dolorosa?"
"Por que tanto sofrimento no mundo?"
Instala-se, então, a dúvida e o questionamento do Ser, da Vida e de Deus. São os saltos no escuro, é a montanha que Abraão leva Isaque, é o caminho sempre aberto para fugir da responsabilidade. É quando acreditamos que não há mais saída. O fim está próximo. E, tão rápido quanto veio a chuva vai, instala-se uma estranha calmaria.
Tudo resolvido, então? Não, continuamos sem entender. Continuamos sem aceitar. Mas algo muito estranho acontece. Algo aqui dentro parece ter nascido. É a fé fortalecida. É a fé que te sustenta quando tuas pernas vacilam.
Pensamos morrer. Acabamos maduros.
Lembra Kierkegaard: "A vida é vivida pela frente, mas só a compreendemos quando olhamos por trás"
Lembra, também, uma simples lição contada pelos antigos:
"Certo homem sentiu-se desesperado e clamou a Deus com toda a dor que há no mundo:
"Por que? Por que?
Por que tu te calas diante do sofrimento?
Por que não fazes alguma coisa para mudar o mundo?
E Deus lhe respondeu: "Que mais queres que eu faça para mudar o mundo? Eu já fiz você"


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QUEM SABE FAZ A HORA NÃO ESPERA ACONTECER


"Vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer". Este é o refrão de uma música muito conhecida de Geraldo Vandré, lá pelos idos dos anos 60 do século passado. Cito esta canção como ilustração muito positiva de uma atitude de responsabilidade ativa pelo presente e pelo rumo dos acontecimentos que praticamente não encontramos mais hoje na nossa geração Xuxa. A má notícia é que nós, crentes reformados, que deveríamos ser exemplo de inconformismo e inconformidade com a ordem estabelecida, somos ainda piores do que aqueles que não confessam a mesma fé que a nossa.
Uma famigerada distorção do conceito de predestinação e soberania de Deus injetou no subconsciente de gerações uma inatividade, uma falta de senso de urgência e uma apatia pela evangelização que são uma das principais causas da falta de crescimento genuíno de nossa tradição e, também, da nossa congregação em Camarista Méier.
O indivíduo raciocina da seguinte forma: "Deus é soberano", "Tudo está predestinado", "Os eleitos serão salvos". Conclusão: "Que papel tenho nisso tudo? Nenhum, já que Deus se encarrega de tudo".
Não vou gastar tempo contra-argumentando que Deus salva seus eleitos pela instrumentalidade dos enviados dEle, pequenos Cristos a proclamar o Evangelho ao mundo. Nem que Deus me escolheu e te escolheu como instrumentos porque, bem lá no fundo, pensamos assim: "Se eu não for, outro vai mesmo".
Vou, antes, caminhar por outra trilha. Essa trilha trabalha com o conceito de missão e gratidão.
"Não fostes vós que me escolhestes, eu vos escolhi e vos destinei a ir e dar fruto, um fruto que permaneça" (Jo 15.16)
A mesma doutrina que distorcemos para fugir da missão quando vista em sua integralidade ensina que a mesma predestinação para a salvação é também para a missão. Fomos predestinados para a salvação e para a produção de frutos. Pode-se dizer com total apoio do Novo Testamento que a predestinação para a prática do bem e do amor é o único sinal que atesta a predestinação para a salvação.
"Aos que escolheu de antemão destinou-os a reproduzir a imagem de seu Filho" (Rm 8.29)
Se você se utiliza da doutrina da predestinação e da soberania de Deus para se tornar um crente acomodado só há duas possibilidades: ou você não é predestinado ou nunca compreendeu absolutamente nada da fé que professa, por isso vive um Cristianismo meia boca.
Portanto, caro irmão e irmã, a vez é essa e a hora é agora de contribuirmos com a missão de Deus. A melhor maneira de começar é perguntando a si mesmo em espírito de oração quais são as reais necessidades de minha igreja e como posso ajudá-la. Nosso projeto é de, em muito breve, nos tornarmos uma igreja forte e independente não apenas em Camarista Méier, mas para toda nossa violenta cidade. A Congregação precisa:
-Da sua contribuição financeira para melhorar a arrecadação. Precisamos, pelo menos, dobrar a arrecadação para pensar em ter um Ministro e virar igreja;
-De evangelização. Precisamos muitas vezes evangelizar da maneira mais simples possível. O modo mais singelo de evangelizar é convidar alguém para o culto;
-De formação de líderes. Um líder deve ser preparado em diversos quesitos, logo um bom líder é construído através da disciplina, do estudo e da prática.

Há, ainda, outras coisas, mas se conseguirmos vencer estas três etapas, que não são nenhum bicho de sete cabeças, o sonho se tornará realidade e você poderá ter a santa satisfação de entender-se como missionário de Deus numa missão que deu certo. É hora de plantar porque o solo está fértil. Os frutos virão...


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EXPERIÊNCIA PENTECOSTAL PARA HOJE


Ao lermos o título desta pastoral somos imediatamente invadidos por um jorrão de idéias que já são consagradas pelo uso e pela popularidade. A história, a filosofia e a teologia têm nos mostrado por repetidas vezes que idéias consagradas pelo uso funcionam como um muro que nos isola e nos impede de enxergar a verdade.
Nesse contexto de teologia para microondas "experiência pentecostal para hoje" seria um discurso emotivo que trabalharia temas como "consagração", "experiências extraordinárias", "milagres", "Línguas estranhas". Um culto pentecostal seria um culto cheio de músicas profundamente sentimentais onde as pessoas expressam física e emocionalmente todas as suas emoções religiosas.
Junta-se a isso a profunda ignorância do povo cristão quanto à sua história. Ignorância que chega ao ponto de identificar o Pentecostes e a experiência pentecostal da Igreja nascente com o movimento histórico eclesiástico chamado Pentecostal, que surgiu em fins do século XIX e início do século XX com raízes nos grande despertamento religioso do século XIX e nos movimentos místicos marginais que sempre estiveram presentes na história da Igreja - sempre associados a algum tipo de heresia trinitária ou novas revelações.
Sabendo da absoluta diferença entre a experiência pentecostal de Atos dos Apóstolos e o assim chamado Movimento Pentecostal podemos construir positivamente e livres de nocivos preconceitos uma doutrina positiva da pentecostalidade da Igreja.
Resumidamente, afirmamos pela fé que uma experiência pentecostal para hoje deve necessariamente:

I. Ser uma experiência de testemunho. O derramamento do Espírito jamais serviu para satisfazer as necessidades religiosas e emocionais dos discípulos, mas para capacitá-los para o testemunho do Evangelho aos homens vazios de Deus. "Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas" (At 1.8)
II. Ser uma experiência comunitária. A experiência pentecostal não é uma experiência do indivíduo com Deus, mas da Igreja com o Espírito. O Espírito é derramado sobre a comunidade reunida, não sobre o indivíduo isoladamente. "Tendo-se completado o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar" (At 2.1)
III. Ser uma experiência ecumênica. O Espírito é derramado não para promover divisões ou formar grupos de "iluminados", mas para promover a unidade e para levar a mensagem do Evangelho a todo o mundo conhecido. "nós os ouvimos apregoar em nossas próprias línguas as maravilhas de Deus!" (At 2.11)
IV. Ser uma experiência aberta para o futuro. O Espírito nas Escrituras é a ação de Deus que, ao mesmo tempo, critica a realidade presente e implanta nela as sementes de transformação para um futuro em que Deus mesmo reconstruirá os castelos destruídos da humanidade. O Espírito é Deus abalando as estruturas do status quo para que ele se abra para sua Vinda. (At 2.17-21)

Sendo assim, devemos perseguir o alvo de nos tornarmos uma Igreja genuinamente pentecostal!




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